sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mets 87

Fui surpreendida em setembro com um grupo no Whatsapp. De velhos colegas do Metropolitano. No meio de toda crise emocional em que eu me encontrava  e cheguei a pensar que não fosse sair. Agradeci particularmente à pessoa que me incluiu e expliquei que talvez não interagisse muito por não estar em condições.
Mas olhava e ria com as coisinhas...
Cada um que entrava era formalmente anunciado com trombetas: "Fulano, is in the house!!" E era saudado efusivamente por todos. De repente estava de volta ao pátio do colégio, mas sem panelinhas. Seres que conviveram no mesmo local, nem sempre juntos, porque cada série tinha em torno de 300 alunos, estavam se (re)conhecendo, abrindo o coração e voltando no tempo.
Um dia comecei a conversar e o mundo se abriu. Eram colegas da mesma sala ( a famosa turma 0) de CDFs, amiguinhas, amigonas, coleguinhas. Gente que não me lembrava de forma alguma. Pessoas que hoje moram em Salvador, Belo Horizonte e até coleguinhas internacionais (Chiquérrimo,né?). Desde sempre as certezas eram :era um grupo para pessoas fortes e de nervos de aço (duzentas mil mensagens...) ; a outra era que nada edificante seria postado ali. E realmente.
Pessoas saíram. Pessoas nunca apareceram. Pessoas quase nunca aparecem. Pessoas pouco aparecem e "reclamam que não conseguem acompanhar". Mas os que são frequentes (um pouco mais de 15), fazem os dias serem mais alegres, coloridos e engraçados.
São filhos, maridos, irmãos, pais, esposas...Profissionais das mais diferentes áreas,.. Prá terem uma ideia, sou a única médica. Não têm dentistas. Tem publicitária, tradutora, psicólogos, professores, engenheiro, contabilista e mais... Só que eu não sei o que a maior parte desses amigos faz e nem me interessa saber.


Sei que são pessoas muito queridas, que conviveram comigo em algum momento e que agora fazem os meus dias mais fáceis e divertidos. Sei que são pessoas que moram no meu coração e, se algumas não moravam antes, era por puro desconhecimento. Agora têm, cada um, seu pedacinho.
Todos dividem problemas, alegrias, frustrações, vídeos estranhos, piadinhas infames, falta de dinheiro. Até bolão da mega sena já fizemos juntos, mas não logramos êxito (Snif...)
Tive a felicidade de encontrar alguns amigos em outubro numa ida rapidinha ao Rio e no dia de voltar tive uma reação alérgica no olho. Precisei ir ao médico e colocar um tampão no olho doente e bastou isso para ser lançada a campanha "Somos Todos Gabi" com os queridos postando fotos tampando um olho. Só rindo!


Em novembro consegui ir a uma reunião maior. Um churrasco. No pátio do colégio. Foi muito emocionante, muito feliz e muito alegre.Tantos risos, abraços, beijos... Felicidade em estado puro. Ana foi comigo. Visitamos as salas, entramos e saímos dos vestiários, teve jogo na quadra...
Fomos felizes naquele sábado, como fomos felizes por muitos anos ali dentro daquele lugar.
Tivemos oportunidade de nos vermos ao vivo e em cores, de confirmar que apesar da dureza da vida, somos felizes por termos uns aos outros por vontade própria. Sem imposições de notas, sem panelas, sem pieguice.
Com amor, como tudo deve ser.
Até meu irmão foi.
Dia perfeito



Beijos e que bom que os METS existem!!

Lela.

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                        Professores, Educadores e Mestres
                     



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Vou dar conta

Posso voltar a ser feliz, eu sei que posso.
Não posso fazer um novo começo, mas posso interferir no meio e mudar o fim.
Com remedinho ou sem, porque não tenho preconceito.
Depressão é doença e deve ser tratada como tal. E não é vergonha nenhuma.
Na verdade ela já dava sinais de que iria me pegar, mas eu ignorei. Como ignorei tantas coisas ao longo da vida. Ignorei não, fiz que não vi por fora e chorei por dentro; como só os muito fortes ou os muitos loucos sabem fazer.
Nunca fui de mostrar minhas fragilidades. Sempre fui a que se virou, que deu jeito, que teve ideias, que tomou a frente, que resolveu. Fiz tanto isso que realmente achei que pudesse fazer isso para todo o sempre. Quando não dava conta, fingia que dava; e fingi tão bem que passei a vida ou dando conta ou fingindo. Que sorte a minha...
Dei conta de estudar, de ir buscar meu irmão na escola, de ser a mais velha, de usar botas ortopédicas, de fazer ballet, de não ter aptidão com qualquer tipo de esporte, de não chorar na frente dos outros, de refazer meus sonhos uma centena de vezes... Dei conta de ter amizades rompidas, namoros desfeitos, poucos amigos, engordar, emagrecer... De ter peito grande, de ser a última da fila, a última e ser escolhida pro queimado. E o meu pensamento sempre foi: Não ligo, não queria mesmo!
Dei conta de mudar de cidade, de não ter emprego, de arrumar emprego, de ter dois filhos e entre eles um aborto por doença. Dei conta de amamentar, de trabalhar. Dei e dou conta de criar meus filhos junto com meu marido.
Dei conta de ver meu irmão ir embora de casa tão cedo na vida, de enterrar meu pai.


Mas muitas vezes eu liguei. Muitas vezes eu teria gostado de uma segunda olhada e uma simples pergunta: Tá tudo bem? Ouvi muito pouco essa pergunta e com isso não me dei o direito de pedir ajuda. E nunca soube como pedir, não sei como fazer, só sei andar.
Tenho andado feito um zumbi em 2015. Minha trombose, minha demissão, a morte da Dóris, a doença e a morte da mamãe. Cansei de dar conta! Não consegui mais... Não queria mais... Quem quiser que fosse lá fazer minhas coisas, porque não ia mais fazer nada.
A primeira coisa que disse ao médico ao ser perguntada o que eu tinha ido fazer lá foi: Minha mãe morreu e eu não sei o que fazer... Isso depois de chorar baldes na frente dele.
Realmente não sabia o que fazer, como tem muitos dias em que ainda não sei. Mas estava insuportável: uma dor rasgando por dentro, me queimando. Não conseguia mais dar bom dia, nem trabalhar, nem conversar. Só conseguia pensar que não tinha mais mãe e que era prá nunca mais.
Nunca mais vê-la, abraçá-la, cheirá-la, dizer que ela era a minha Adelaidinha. Meu telefone ficou mudo. Disso eu não dei conta. Eram noites inteiras sem dormir pensando no que fazer, por onde (re)começar e até perceber que não estava dando conta foram quase 2 meses inteiros.
O óbvio diagnóstico foi depressão. Afastamento do trabalho. Remédio.Terapia. Descanso. E assim fiz.
E assim venho fazendo. Remedinho (dane-se!!), longas conversas, longos silêncios , apoios esperados e inesperados (Mets, vocês são bárbaros!!!), abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.
Já desentupi um pouco e comecei a falar e isso talvez seja um bom começo. Ainda não sei pedir nada, mas posso aprender. Afinal, vai ser só mais uma coisa que vou aprender a dar conta: de pedir ajuda.




Leia também:Mãe
                      Uma ano
                      Passa Tempo
                      Irmãos




quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Mãe

Nunca pensei que minha mãe fosse morrer tão rápido.
Imaginei que ela ficaria uma velhinha amalucada, esquecida, alegrinha...
Nunca perdi a esperança de ver minha mãe feliz; , mesmo sabendo que sua morte começou no dia da morte do meu pai e que o peso das tristezas sofridas ao longo de sua vida saíam por todos os seus poros. As coisas não superadas foram muitas, maiores que as felicidades.
O olhar prá trás da mamãe era doído, dava quase prá sentir as dores dela, os abandonos, os desencontros, os enganos...



Fui uma filha brigona, eu sei... Rude ao falar por muita vezes, na tentativa que a minha rudeza acordasse a mamãe; que fizesse com que ela visse que aquilo tudo tinha passado. Que ela estudou, trabalhou, casou com o amor da vida dela, teve filhos e conseguiu que eles fossem educados. Teve netos... Mas mesmo sorrindo,ela tinha uma tristezinha. Era um meio sorriso,nunca uma gargalhada. Isso às vezes irritava, frustrava, entristecia. "Que mais eu posso fazer, meu Deus?"
Mas apesar do meu jeitinho "doce", tentei de todos os modos ser uma boa filha.
Adorava estar com ela, sair com ela, falar no telefone, deitar na cama com ela, implicar com o óculos sujo ou com a alça do sutiã, ajudar a escolher suas roupas, montar a Árvore de Natal. Adorava saber que quando ela estava aqui, não tinha que me preocupar com o dever de casa.
Aí um dia, ela me contou que foi fumante por mais de 20 anos. Hã? A minha mãe!! Não, impossível. Porque nunca vi, cheirei, desconfiei... Foi escondido, para que meu irmão e eu não tivéssemos mau exemplo. Coisa mais ridícula!! Mas ela era assim, culpada. Não posso mudar o que ela foi e agora que não posso mesmo.
A notícia que ela tinha câncer não me pegou de surpresa, a rapidez com que ela foi consumida por ele,sim. Tão logo recebeu a notícia, o seu estado mental piorou a olhos vistos e ela simplesmente apagou esse assunto. Foram tantos remédios para amenizar suas dores, a única coisa possível no estado em que se encontrava, que ela saiu do ar. Não tinha dor, mas tinha todo o resto.
Não tínhamos mais o que fazer, a não ser estar ao lado dela até que sua hora chegasse. Fomos amparados  pela família, pelos nossos amigos e pela tão querida "rede velhinha".
A rede velhinha era o grupo de amigas dela, da escola, do trabalho, do prédio, da vida, que foram incansáveis no hospital fazendo revezamento de visitas, ouvindo as coisas sem anexo que ela dizia no
fim, encorajando- nos, chorando conosco quando chegou o fim. Também tive muitos amigos queridos ao meu lado, fisicamente ou não e meu irmão também.
Os netos, meus filhos, estiveram com ela e  a última coisa que ela comeu foi dada pelas mãos do Miguel. As crianças ficaram assustadas e muito tristes, mas tinham o direito da despedida e fizeram da maneira que deram conta.
Quando mamãe morreu eu não estava ao lado dela, mas ela não estava sozinha ou apartada de nós. Meu irmão esteve lá até o final e eu tenho inveja dele por isso.
Não pedi desculpas pelas brigas, pelos maus modos, pela impaciência. Não agradeci por todas as vezes que ela me botou prá estudar, que ligou por nada,que foi tagarelando ao telefone enquanto eu dirigia, que me encorajou a continuar, que me disse que eu era capaz, que me disse que eu não era todo mundo...Por todas as vezes que eu quis desistir de tudo e continuei por causa dela. Sim, eu tinha verdadeiro pavor de desapontar a mamãe, que ela ficasse decepcionada comigo por qualquer motivo.
Nos últimos dias, a única coisa que conseguia era falar que eu a amava, fazer massagem nos seus pés, dar beijos no seu rosto magrinho. Só.
Tenho saudade, tenho um buraco no peito, tem dias que não tenho vontade de levantar. Todos os dias, ao acordar a primeira coisa que penso é que não tenho mais mãe, que não vou ouvir a voz dela me chamando de "Presentinho".
Vai passar, vai mudar, vai virar outra coisa. Certamente que sim, mas por agora não.
Vovó, já velhinha, deitada ao meu lado, disse muitas vezes que não tinha inveja de ninguém, mas aí parava e fazia uma ressalva: "Só tenho inveja de quem tem mãe."
Eu também,vó... Eu também.


Leia também:Casa
                      E o que você fez?
                      Você não sabe quanto eu caminhei
                      Silencio








sábado, 17 de outubro de 2015

Casa

Quando se percebe que a casa agora é sua?
Pergunta estranha essa.
A casa era da vovó. Depois da partida desta, passou a ser da mamãe. Mas mesmo assim nada mudou. Continuei a chegar e a encontrar a cama feita, lençóis fresquinhos, casa limpa e arejada, geladeira cheia, compras feitas. Nunca tive que me preocupar com quem trabalharia lá, com goteiras, com a conta de luz. Passava meus dias felizes na minha alienação, como se a casa funcionasse sozinha. Sempre foi assim.
Vovó cuidava de tudo: tinha quintal varrido, queijo, balanço na goiabeira, querosene nos lampiões para os dias sem luz, canto da cama para as noites de medo. Eram quase 4 meses ao ano, se fossem somados os feriados e fins de semana. Conserta daqui, arruma dali e a casa estava sempre lá prá mim e para o meu irmão. E nos abrigou na infância, ouviu choros na adolescência, brigas, brincadeiras, segredos.
Um dia vovó resolveu que era chegada sua hora e depois de 17 dias, partiu. Foi levada por nós para a casa onde nasceu, trabalhou,casou, começou a criar a filha, adoeceu e mudou. A casa sempre esperou por ela, por nós. E sua última noite foi passada lá, rodeada da família e de tantos amigos.
E a casa continuou. Agora com outra dona, a filha, minha mãe. E tudo continuou. A disposição das camas demorou a mudar, Os móveis pouco mudaram, grandes obras de reforma, mas tudo com a simplicidade e a dificuldade que acompanhou a vida das duas. Mas ela era um membro da família, não a casa da família. Era o ser ouvinte, vivente, acolhedor.



Quando os bisnetos chegaram, a casa recebeu um nome: Casa Azul. De azul só tem as janelas, mas quem discute com criança por causa disso?? Pois é, ninguém.E ficou mais viva do que nunca, já que agora tinha nome e sobrenome, identidade. Não era só um número numa avenida de uma cidade perdida no meio de quase 900 municípios de Minas Gerais. E assim, ela ficou mais orgulhosa ainda da sua trajetória e foi enlarguecendo e sempre cabia mais alguém: amigos, sobrinhos, netos, bisnetos, gatos, passarinhos, morcegos, panelinhas, fotos, bicicletas, bonecas. Há quase 2 anos passou a caber a Luna também, que entrou pelo portão da garagem e não saiu mais.E que também é dona da casa.
Pois bem. Eis que esse ano, depois de 22 dias, mamãe resolveu que era chegada a sua hora também . Pouco sofrimento prá ela, em vista do que poderia ter sido e muito prá nós. Uma dor, um buraco, uma falta tremenda, tamanha!! A sensação é de não ter prá onde ir, de não saber prá onde voltar. O telefone de casa ficou mudo, as banalidades não poderão mais ser ditas e aquela mãozinha fininha não vai mais alisar o meu braço prá eu dormir e a boca não vai beijar meus olhos e pés ao sair do quarto.
Tantas coisas práticas a serem resolvidas entre duas pessoas: meu irmão e eu; e uma única certeza: a casa vai continuar sendo nossa. O que fazer com o resto, não sabemos ainda, mas sabemos que a Casa Azul vai continuar sendo a NOSSA casa.
Chegou o dia de ir até lá a primeira vez como "dona". Quando cheguei, tudo em ordem, mas panos nos móveis, camas sem fazer, geladeira e armários vazios. Agora isso é minha função, entre tantas.Nunca pensei nesse dia em toda a minha vida e por isso, não me preparei pra ele. Foi um baque. Ser recebida pelas lambidas saudosas da Luna, passar por dentro daquela entidade e abrir a porta para que os outros entrassem. Perceber que recebi uma missão, que há tempos foi dada à minha mãe: tomar conta daquela casa, fazer com que ela resista aos anos e possa receber mais amigos, namorados, cachorros, gatos, passarinhos, mudas de árvores; que suas árvores possam dar frutos, que seus temperos possam perfumar o quintal.Doeu tirar cada pano,cada plástico,arrumar cada cama. Imaginar quantas e quantas vezes isso foi feito, quantas vezes alguém ficou prá fazer isso.Desmontar a bagunça dos filhos e netos. E nunca reparei. Nunca agradeci e muitas vezes reclamei.
Agora a função é minha e espero estar pronta para ela.

Beijos,

Lela.

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                       Férias
                       Saudade











terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A gente faz e Deus desfaz, porque quem sabe o que faz é Ele...

Estou há algum tempo sentada na frente do laptop tentando começar, mas até o título está difícil.
Como contar que saí uma segunda feira de manhã para a depilação, para comprar o presente que faltava ( o do marido, lógico...) , que cheguei em casa tranquila e depois de mais ou menos 1 h, dava entrada na urgencia de um hospital com uma trombose de toda a perna esquerda, desde a coxa até...?
Viajaria no dia seguinte para Estrela Dalva, para o Natal com a mamãe e o Jayminho, junto com as crianças e voltaria dia 30 para a virada de Ano junto com o Mário, que dessa vez não poderia ir conosco. Sempre tenho folga uns dias antes e esse ano sei lá porque, mas Deus com certeza sabe, sairia apenas no dia 23 de dezembro. Foi a sorte. Tivesse acontecido na estrada ou em Estrela, estaria muito ferrada.
Quando em casa, vi a minha perna dobrando de tamanho e mudando de cor, sabia o que estava acontecendo e sabia que todos os planos que tínhamos feito para as férias tinham ido por terra. Do carro até o hospital, era tanto desconforto que achei que pudesse estar morrendo e mudei o diagnóstico algumas vezes em pouco mais de 2,5 km. Passei de trombose venosa profunda para embolia pulmonar, mas cheguei a cogitar outras coisas mais mortais ou sequelantes de tão mal que me sentia. Mas enfim, era trombose venosa profunda, de ilíaca, femural, e o do que mais houvesse para trazer meu sangue venoso até a veia cava prá depois ele poder seguir o rumo dele. Tudo entupido! O tratamento, depois de confirmado o diagnóstico clínico com um singelo exame de duplex scan, foi iniciado já no box da urgencia, de onde eu não teria saído até o dia seguinte se não tivesse havido um outro personagem: o dinheiro.
Sim, porque os quartos destinados ao meu convênio  estavam lotados e eu era a quinta da fila e a previsão era que eu ficasse até a tarde do outro dia num box da urgencia. Mas como nos dispusemos a pagar a diferença da diária do convênio, logo subi para o apartamento. Que país é esse????Mas isso é conversa para outra hora.
Dormi num hospital pela primeira vez numa situação adversa, porque dar plantão e parir não são nada perto de ser paciente de verdade. Acordei com  o médico vendo a minha perna e dizendo que eu teria 2 opções: uma tentativa de revascularizar colocando um cateter que iria da veia atrás do joelho até a veia cava, colocando remédio direto onde estava a obstrução; ou o tratamento clínico, em que eu teria mais de 50% de chances de ficar com sequelas graves. Optei pela primeira depois de pensar e pensar e sofrer. Passaria 2 dias no CTI por causa desse procedimento e isso significaria o Natal sozinha.
E o medo?? E a angústia?? E aquela coisa de mãe que quer ficar perto dos filhos?? E as malas deles que nem cheguei a arrumar?? E a frustração??
A frustração multiplicada por 3,mas com a minha eu me arranjaria depois...Estávamos com tudo marcado para realizar um sonho. Iríamos para Orlando dia 21 de janeiro. Passagens, hotel, ingressos, carro, tudo reservado. Restaurantes com direito a personagens... O Harry Potter... Era o sonho deles? Era sim, mas era o meu também. Sempre quis muito abraçar O ratinho e estava contando os dias para esse dia chegar e via nos olhos dos meus filhos aquele brilho de felicidade cada vez que tinha uma novidade.
Passado o susto inicial e voltando a usar a cabeça sabia que tinha sido o melhor momento (se é que tem melhor momento...) para ter uma coisa desse tipo e gravidade. Encarei o procedimento e encararia o CTI. Mas ao acordar e fazer a indefectível perguntinha "E aí, doutor, deu certo?" , ganhei como resposta um sonoro "Não". Peraí?? Como assim, não?? Não era bem isso que esperava ouvir e foi ficando pior porque ele me disse que não conseguiu chegar com o cateter até onde deveria porque tinha alguma coisa na minha pelve comprimindo a veia. Ah, pronto!! Iria descobrir que tinha feito uma trombose na boca do Natal e que além de tudo estava com câncer. Ah, mas xinguei, viu!!! Que droooga!!! Pensei logo que Deus é gente boa prá cacete e não ia arrumar uma presepada dessas comigo, que meus filhos ainda precisam de mim e tudo que  todo mundo pensa, mas deu medo.Tinha um capetinha com a voz do Caetano cantando a música do Chico de vez em quando : "Deus é um cara gozador adora brincadeira..." e mesmo mandando que ele calasse a boca, ele insistia. Mas uma tomografia de abdome 2 dias depois, no dia do aniversário do Miguel, mandou essa possibilidade embora.
Deus não falha. Nunca. Jamais. E Ele sabe de absolutamente todas as coisas e todas as horas.
Novo procedimento e agora sucesso. 2 dias no CTI com medicação e depois quarto.
O CTI acordada é um caso a parte. Já avisei que é o que desejo às inimigas, com direito à coleta de gasometria arterial as 4 da madruga. É... Brincadeira!! Ninguém, mas ninguém mesmo merece.
No quarto tive a companhia do Mário, que esteve do meu lado desde a urgencia até a alta. Que brigou por mim. Que me deixou chorar quando eu tive vontade. Que falou comigo como se eu tivesse 5 anos muitas vezes.Que me trouxe de volta à razão, como muitas vezes ao longo de todos esses anos, Que me levou sorvete no CTI. Que fez comida prá mim. Que conseguiu dormir num lugar onde cabe meio Mário (sem sacanagem...) .Que me trouxe prá casa hoje. E que vai me vigiar de agora em diante.
Tenho muitas coisas a falar sobre todas as vivências desses dias, mas não mais hoje.
Hoje quero somente agradecer por muitas coisas : por ter a chance de recuperar a saúde; por ter uma família tão bacana que fez e está fazendo tudo o que pode para que eu não me preocupe tanto; pelos amigos e conhecidos que se fizeram presentes das mais diferentes formas; pelas orações. Agradecer a Deus mais uma vez por não me deixar na mão... Obrigada, Pai!!

Estou de volta!
Feliz 2015!
Beijos,

Lela.

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                       Quando eu falo com Deus?






domingo, 23 de novembro de 2014

Som do Meio Dia

Acordei hoje com uma mensagem no Facebook de uma amiga dizendo ter lembrado de mim ao ver a Sandra de Sá no Altas Horas essa madrugada. Apesar de ser uma  amiga sumida, furona, tratante, não deixo de pensar também nessa época com carinho
1993/94. Internato no Hospital Jesus, Vila Isabel. Muito trabalho, muita luta e muito aprendizado, todos os dias o dia inteiro. Iríamos nos formar no final do ano.
Mas, graças a Deus tem sempre um mas...Uma vez por mês ou a cada 2 meses, havia o Projeto "Brahma o Som do Meio Dia", que levava para o teatrão da UERJ nomes da MPB justamente ao meio dia. "Fugi" para assistir Flávio Venturini, desencontrei das amigas e assisti sozinha o show de 2 horas, em que ele cantava tudo. Ninguém me olhou estranho quando meus olhos encheram d'água com Todo Azul de Mar, porque afinal de contas, estavam todos muito mais ocupados com as suas próprias lágrimas e não iam perder tempo com aquele pontinho branco sozinho.
Era muito bom! O teatro enorme, nem sei a capacidade, o som bacana e dava prá ver tudo de onde quer que você ficasse, porque, creia, fiquei em tudo quanto era canto daquele teatro.
Acho que a primeira vez foi Ivan Lins e Selma Reis que arrasaram!!
Mas teve um dia que descemos a ladeira para ver/ ouvir/ dançar/ pular com Sandra de Sá,que na época ainda era apenas Sandra Sá. E vimos, ouvimos, dançamos e pulamos, viu?? Todas as músicas, daquela que era considerada "brega". E adoramos! Se não estou enganada fomos sem lenço e nem documento, coisas da juventude...



Obrigada por lembrar, querida Ana Paola
Lela.

Leia também: Ecletismo na música
                     

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Carta para Ana Teresa

Bom dia, meu amor!
Enfim seu dia chegou; e como demorou!! Longos 365 dias que a senhorita tratou de aproveitar muito bem com risos, conversas, brincadeiras, maquiagens, amizade, correrias.
Como venho dizendo a você nos últimos dias, o tempo está passando muito rápido. Outro dia mesmo você nasceu e tinha cólicas, chorava, golfava, embranquecia meus cabelos... Logo ali na esquina do tempo, escutava seus pés batendo no chão quando tocava a campainha de casa e seus gritinhos de "Mamãe chegou!!" ... Nossa filha, isso foi quase ontem! Mais adiante foi seu primeiro dia no jardim de infância, dia esse que estava tão quente que a professora tirou sua blusa e seu tênis; quando fui dar uma espiadinha de mãe, descobri que a "novata" tinha ares de veterana e estava correndo pelo pátio, brincando com água e feliz da vida, como se sempre estivesse estado ali.
O tempo voou e deixou minha bebê para trás. O que vejo hoje é uma menina cheia de riso, estilo, opiniões, dúvidas, mentirinhas, brincadeiras, que reproduz com as amigas as grandes questões da vida e quase sempre se sai muito bem. Chego a ter que me esforçar para lembrar de você pequena, filha... Você nasceu grande, adulta, sábia...
E apesar de tudo isso, Ana Teresa, você é uma molequinha. Corre sem parar, tem terra no cabelo, esmalte descascado, quarto desarrumado, medo de escuro. E são essas coisas que fazem você ser especial ,única, diferente.
Você REALMENTE é um presente para todos nós e ao longo desses 8 anos tem ensinado muitas coisas a todos aqueles que podem  e têm o prazer de conviver com você.                                
Prá mim, então! Descobri coisas muito interessantes de mim ao olhar para você: que eu posso ser fofinha, que não é pecado gostar de vestido e querer ser mulherzinha, que gênio ruim é difícil de lidar. Que eu posso, sim ser mãe de menina sem ser fresca; que negociar é com certeza uma arte que requer muita imaginação e energia.
Dizer que você é parecida comigo é tão bom de ouvir, filha!! Fisicamente eu sei que é. Mas o engraçado é o quanto que você se parece comigo nas outras coisas e sobre isso, sempre que posso eu alerto: vai com calma, baixa as armas, não revira os olhos...
Sabe o que descobri? Que você nasceu no mesmo dia da poetisa Cecília Meirelles, mulher maravilhosa, sensível, profunda. Está muito bem acompanhada e um poema como "Ou isto ou Aquilo" define você muito bem e, a medida que você for crescendo, acho que vai poder se encaixar em tantos outros. Mas por hora, minha homenagem a você vai com os versos do Poetinha Vinícius de Moraes que o vovô cantava prá mim e hoje estou sendo praticamente obrigada a repetir prá você : "Menininha do meu coração eu só quero você a três palmos do chão..."



Um beijo, Linda.
A mamãe ama muito você.


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