sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Maria de Lourdes

Maria de Lourdes nasceu em 1905 numa família que ao todo era de 12 irmãos. Era filha do dono do cartório e de uma senhora que foi professora nesse pequeno distrito de Minas Gerais, São Sebastião da Estrela. Nasceu em casa, como era hábito na época.
Em setembro, dia 29. Dia de São Miguel.
Teve por padrinho o primogênito homem, orgulho da família por ter estudado e virado doutor; tinha verdadeira adoração por ele e pelo nome dele, que considerava lindo, Hordomundi (Isso lá é nome?? O corretor fica tentando corrigir isso e não consegue).
Era muito amiga do irmão imediatamente abaixo dela, Juvenal; e vivia entre tapas e tapas com a caçula, que dizem por aí, era a preferida da mãe e aprontava todas.A irmã mais velha e adorada era Júlia.
Mas eles era muitos: Hordomundi, Maria da Conceição (Cicinha), Sebastião (Tatão), Oraida, Colimério (olha o corretor tentando...), Julia, José, Antônio Carlos, Maria de Lourdes, Juvenal e Maria do Rosário. Um morreu bebezinho, mas era contado como irmão. Então era aquela toada dos mais velhos irem cuidando dos mais novos, assumindo responsabilidades. A diferença entre o primeiro e o último irmão era de mais de 20 anos.
Meninas desde cedo aprendiam as prendas do lar, a bordar, fazer crochê, costurar; e os meninos eram logo engajados em qualquer coisa que pudesse ajudar em casa, porque afinal de contas eram muitas bocas.
Pois bem, o tal do padrinho resolveu que Maria de Lourdes iria estudar numa boa escola; era doutor delegado numa cidade do Sul de Minas e levou a menina para estudar interna em Campanha, no Colégio Sion, local onde moças ricas e finas estudavam. E lá foi ela. Pegou o trem na estação de São Sebastião, depois o ramal e foi baldeando para uma nova e totalmente desconhecida vida, deixando para trás os pais, a amiga Rosa, as brincadeiras na Saudade, a casa, a dindinha Malvina e a irmã que era seu desafeto.
Naquele tempo filho não tinha vontade, criança obedecia e pronto. Mulher não tinha vontade, não tinha direito, não votava, às vezes nem escolhia marido. E numa família pobre, essa oportunidade foi uma dádiva.


Maria de Lourdes aprendeu francês, pintura, piano, além das coisas que iria precisar na pequena São Sebastião. Talvez tenha sido nessa viagem que ela aprendeu a ter coragem. Descobriu Papai Noel no colégio de freiras, vislumbrou uma possibilidade: voar.
Mas as asas foram cortadas. Ao terminar o colégio, recebeu proposta de ser tutora de uma moça de família rica, mas sua mãe não permitiu que ela aceitasse, disse que precisava dela em casa. E ela voltou. Era muito saber prá pouco lugar, mas quem disse que mãe era pra ser desobedecida. Muitos anos depois, alguns irmãos ainda falavam do "crime" do Padrinho: dar aquela educação, abrir um mundo de possibilidades, chegar a abrir a porta da gaiola e quando a passarinha ia voar, fechar de novo a portinhola. Mas é disso que é feita a vida, planos.


Maria de Lourdes voltou. Deu aulas, teve muitos alunos pelas bandas de lá. Amada por uns,por outros nem tanto. Ajudou a mãe, aprendeu o ofício do pai, já que nenhum filho homem ficou por lá. Viu vários sobrinhos nascerem, ajudou o quanto pode a irmã Julia e a cunhada que enviuvou do seu irmão-amigo Juju.
Ela que tinha ido, voltou e ficou. Dizem mesmo que era a filha preferida do pai e a menos preferida da mãe, que nunca se conformou da sua eleita (a caçula) não ter tido a mesma formação.
Casou com Manoel já mais velha, a mãe já havia morrido. Foram morar na casa, junto com o Seu João.Tempos depois veio a filha, mais uma Maria Adelaide para homenagear a mãe falecida, também nascida na mesma casa e no mesmo quarto. E foi a única, por motivos desconhecidos.
Manoel era nervoso e moralista. Havia saído de casa por causa de uma irmã "que se perdeu", havia sofrido uma derrocada nos negócios e na vida e acabou herdando o cartório quando do falecimento do Seu João, anos mais tarde e esse era seu ofício junto com a esposa.
A vida fez Maria de Lourdes ser forte, trabalhar, ajudar, apoiar, mas essa fortaleza foi traída mais uma vez, agora pelos pulmões: Tuberculose.
Tuberculose já havia matado Juju, e agora a levava para um sanatório, para longe da única filha, que foi entregue a parentes e nunca conseguiu superar as coisas que vivenciou enquanto a mãe esteve doente. Mas ela ficou curada.
Mais uma vez conseguiu e deu uma volta no destino. E voltou.
Maria Adelaide ficou, mas com um outro tio, Tatão, sua mulher (a terceira) e com Fernando, um priminho danadinho que cismava que ela se chamava Ié Ié.
Um dia ela enviuvou. 1963. Reviravoltas da vida levaram de vez Maria de Lourdes para longe de São Sebastião, agora Estrela Dalva. Sem o cartório, sem pensão do marido que não chegou a ser aposentado, ela mais uma vez saiu. O destino dessa vez: Rio de Janeiro.
Eram as duas agora no apartamento alugado no Engenho de Dentro: a mãe e a filha; pela primeira vez em muito tempo.
Daí para outro apartamento, próprio. Depois para São Paulo, quando Maria Adelaide casou;BH, onde viveram por um ano; e de volta ao Rio com dois netos.
A filha trabalhava,o genro trabalhava e ela ajudava com as crianças. Era muito rígida, muitas vezes rude, como devem ter sido com ela. Mas tinha a responsabilidade de cuidar de filhos que não eram dela; de seguir regras que não foram feitas por ela; num mundo novo, mudado, diferente. Reclamou muitas vezes não ter carta branca para agir como deveria e botar os meninos na linha...Tinha um gênio do Cão.


Tinha adoração pelo neto. Sempre viveu num ambiente masculino, em que teve que se impor e numa época em que mulheres não se impunham. Reclamava que a menina era lerda. Botava prá estudar, levava em natação, balé, inglês;ia às reuniões da escola, esperava o ônibus escolar com os meninos.
Um dia, com os meninos mais crescidinhos, a filha aposentou e assumiu essas responsabilidades. Então ela aposentou também: despiu a capa de tutora e botou a roupa de avó, coisa que fazia apenas de vez em quando durante as férias.
Aí ficou bom para todos os envolvidos: Maria de Lourdes fazia um feijão como ninguém, uma goiabada!! Dava cantinho para a neta, que revelou que não era tão lerda assim e tinha saído a ela em muitas coisas, no gênio bom principalmente. Escovava os cabelos dela como nunca mais ninguém conseguiu fazer, trançava, pegava do pescoço para cima com uma delicadeza, deixava que ela pintasse suas unhas, sentasse no seu colo. Contava histórias divertidas do tempo da escola, do cartório, do Sion, da casa.
Na casa, desde sempre, quando não precisava cuidar da tabuada ou dos coletivos, brincava de circo com as crianças debaixo da parreira: era a Mágica, a pipoqueira e a platéia. Em julho fazia fogueira, enfeitava o quintal com bandeirinhas, contratava um sanfoneiro e convidava os amiguinhos para soltar umas bombinhas de São João. Parava charretes ou carros de boi e pedia se podia levar os netos "só até ali". Tricotava gorros para todos. Botava uma mesa de lanche como ninguém.
No final das contas, com os netos criados, virou um docinho de avó, daquelas que os olhinhos brilhavam quando o rapazinho chegava para o final de semana ou quando a neta chegava do hospital depois de uma noite inteira. Quando eles saíam, ela ia pra janela do 12º andar para esperar que eles virassem e abanassem a mão. E lá ficava ela rezando o Salmo 90 e pedindo por eles.
Foi uma mulher de fibra, essa Maria, como tantas. Mas essa foi especial.


Foi essa quem nos ensinou também a andar de cabeça erguida, para frente; que orgulho e altivez são coisas completamente diferentes, mas que podem ser confundidas facilmente; que o caminho realmente não é fácil, mas dá pra ir; que canto de vó é a melhor coisa do mundo; que ficar de castigo atrás da porta não mata e que pode até ser divertido; que sacrifício por quem a gente quer bem não é tanto sacrifício assim. Que coração é terra que ninguém pisa; que dá prá ser dura e ser leve.
Ensinou que apesar de tudo, a vida vale a pena, que não dá prá fugir de problemas, mas sim olhar dentro dos olhos deles e pensar " estou pronta".
Era porreta essa Maria de Lourdes.
Tenho saudades dela, mas ela está dentro de mim e é parte de mim. Somos parecidas em muita coisa, para o bem e para o mal.
E tenho muita alegria de poder ter convivido com essa avó maravilhosa!

Beijos,
Lela.


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                       1 ano!!
                     
     







segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Rotulando o meu Depósito

Hoje alguém me perguntou sobre o que costumo escrever, se era um blog sobre Medicina. A resposta veio rápida: "Lógico que não!" . Não me julgo capaz de escrever seriamente sobre o meu trabalho. Aí esse espaço que é tão importante em minha vida deixaria de ser ilusão, brincadeira, desabafo e viraria obrigação. Não, não... Nunca foi esse meu objetivo.
Depois desse pequeno diálogo fiquei pensando que nunca soube responder a essa pergunta. Sobre o que falo? Para quem falo? As respostas vieram transbordando, escapulindo da minha cabeça e vieram bater bem aqui. No blog, com esperança de que ,talvez, alguém possa me esclarecer.
Falo da minha vida, das minhas observações e opiniões, dos meus gostos, dos meus olhares, das minhas dores, do meu silêncio...É  essencialmente um blog egoísta, é minha terapia. 
É de moda? Só se fosse para reclamar da pesudo moda que fazem para as pessoas plus size, a maioria ridícula; e como viro escrava dos lugares que possuem roupa pra mim... Então não é.
É de maquiagem? Embora adore, e com certeza faria minha filhota muito feliz, também não... Não tenho tempo, dinheiro e muitas vezes disposição. Mas um conselho aprendido e executado como a rotina de escovar os dentes, posso dar: rosto lavado com sabonete para pele oleosa e filtro solar. Rosto lavado à noite, maquiagem retirada e pronto.
Pausa para a piadinha: Há uns dois anos, fiz uma consulta com uma dermato- amiga ou amiga- dermato. Perguntinhas de sempre: lava o rosto? Sim. Usa filtro solar? Sim. Quando começou a prevenção anti rugas? Gelei...Oi?? Tinha que prevenir, Carol? É Gabi, tinha... A partir dos 25 anos. Ops, então fud..., quer dizer ferrou. Estou quase 20 anos atrasada. Confesso que usei religiosamente o troço por um tempo, mas é tão caro que ando preferindo ficar enrugada.


Voltando...
Não é sobre celebridades, spoilers de filmes, tutoriais para passar de fase no Candy Crush... Nada disso. Falo sobre a vida, a minha. Dos meus filhos, da minha normalidade, das minhas aflições, minhas manias. Então deve ser uma coisa muito sem graça, banal.
Já tinha pensado uma vez que deveria mudar o nome desse blog para "Banalidades da Lela". Mas eu gosto do "Depósito"... Apeguei. Meus amiguinhos e incentivadores gostam.
Mamãe nunca leu, acreditam? Isso me chateava bastante, queria que ela tivesse lido alguma coisa e criticasse, mas acho que ela não sabia o que era e não se interessou porque era no computador. Vou ter que conviver com a frustração/ curiosidade de saber a opinião dela. Não sei com que frequencia meu irmão lê. Tenho elogios de pessoas que são importantes na minha vida. Mário gosta, mas hoje em dia não comenta comigo e nem dá seu veredito. Meus meninos não falam nada, só costumam ficar do lado lendo os rascunhos e perguntando o significado de algumas palavras.
Jamais falaria sobre política e economia. Entendedores entenderão... (rsrsrs)
Não faria um blog sobre Pediatria. Não aguento quem lê o Dr. Google e acha que tem um diploma na mão; não suporto mães reclamando de pronto atendimento lotado e que leva o filho até lá porque está com febre há menos de 12 horas e nem sequer mediu a temperatura do pobrezinho; quem diz que virose é pra quando o médico não sabe o que a criança tem; ou que já chega pedindo RX e receita de antibiótico para tosse. Seria um desastre completo esse blog! Eu seria queimada em praça pública e, sinceramente, não quero não.
Não sou ferrenha defensora do parto normal. Sou defensora da responsabilidade do médico com as vidas que estão ali: mãe e filho. O que for melhor para os dois. Sem interferências externas como as da política, estatística e para ficar bem na fita. O que fazem hoje com as mães que parem (sim, o verbo é PARIR, 3º conjugação) através de cesariana é desumano e desrespeitoso. É bullying, preconceito... É feio.
Tive duas cesáreas e não sou menos mãe porque não entrei e fiquei em trabalho de parto por horas (até entrei, né Teca?) e ai de quem ouse dizer isso na minha frente! Esperei pelo parto normal do Miguel, mas com uma pressão arterial 190/ 120, a decisão deixou de ser minha. " Vai internar agora, viu doutora? Vamos fazer agora! " O que eu podia dizer, que não tinha feito escova no cabelo? " Sim senhora, doutora, vamos". O que eu poderia fazer com a Ana que adiantou 2 dias e me fez entrar em trabalho de parto de madrugada, já com a cesárea marcada. "Nasce agora não, filha...A vovó só chega hoje de noite e a mamãe não depilou nem fez as unhas?" Nasceram ótimos, saudáveis, chorões e maravilhosos, como são até hoje.
Então, meu blog é sobre banalidades; sobre uma vida comum; sobre erros e acertos; sobre amor de mãe, de mulher, de filha, de irmã, de amiga e de profissional.
E só.

Beijos,
Lela

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Tchau, 2015!

2015 já vai tarde.
Sério mesmo!!
Ano difícil esse.
Iniciei no hospital, internada por causa de uma trombose.
Minha tão sonhada viagem para a Disney, adiada.
Depois de 2 meses de licença, retornei ao trabalho e em mais 2 meses recebi a notícia que meu trabalho "não seria mais necessário". Fui dispensada depois de quase 8 anos de trabalho numa clínica sem um motivo real, apenas a famosa crise.
Engoli em seco e vim chorar em casa, porque afinal de contas ainda teria que cumprir 2 meses até o descredenciamento final. Não recebi qualquer explicação direta da chefia, nem um obrigado e tchau...Pacientes inconformados, mas que seguiram no plano de saúde escolhido por suas empresas e eu fui um rio que passou em suas vidas.
Um dia depois dessa notícia, Dóris, nossa companheira de 15 anos, muito velhinha, foi correr no Céu dos Cachorros.
Ufa!! E era só maio.
Mamãe, que fazia seus acompanhamentos semestralmente, adoeceu, internou e morreu em 24 dias, Adenocarcinoma de pulmão.
Aí achei que realmente não fosse aguentar. Fiquei sem chão, sem casa, sem mãe. Sem um grande pedaço do meu coração. Desmontamos o apartamento, doamos as roupas dela e revimos em dois dias a vida dela dentro de um armário. Cartões do papai, cartinhas e bilhetinhos nossos que mostravam um cotidiano desencontrado mas cheio de carinho; lembranças de amigas queridas de toda uma vida. Mil orações, santinhos, terços.
A viagem pra Disney aconteceu, foi ótima, Mas menos ótima do que pensei. Sei que tenho que voltar para ver com olhos alegres todo aquele esplendor.
Voltamos à casa de Estrela Dalva e deixamos claro que ela está sob nova direção, mas não desocupamos nada, Essa tarefa ficou prá mim, e será executada com coragem, se Deus me ajudar.
Não dei mais conta... Parei num consultório de um Psiquiatra, comecei um tratamento e estou nele. Está me fazendo bem, conseguiu me desentupir e me fazer voltar a falar, a ver muitas coisas de outra maneira, a me relacionar melhor em muitos aspectos.


Voltei ao trabalho, consegui um novo trabalho.
Não consegui lidar com as dores de outras pessoas, como a do meu filho e isso teve reflexos nele. Mas não consegui, nem vi.
Reencontrei amigos de longa data e descobri que a hora do recreio nunca acabou; que podemos ser amigos agora, mesmo se não tivermos sido no passado. Dois encontros com os colegas em um mês mudaram minha vida. São bons dias, boas tardes, boas noites, fotos de filhos compartilhadas, presentinhos doidos, mil opiniões e nenhuma desavença,
Agora está terminando esse ano que levou minha mãe, minha cachorra, meu trabalho.
Que está levando empregos, esperanças, sonhos de um sem número de brasileiros. Um ano em que o mundo sofreu com atentados, com a política, com a corrupção, com a poluição, desastres ambientais; e com aumentos de contas. Com a desesperança a nível mundial, com refugiados chegando à Europa (ou não conseguindo).
Não foi fácil não esse 2015; e 2016 já vem chegando,
Lógico que prometi que vou mudar, fazer ginástica, emagrecer. Que vou ser mais atenta, trabalhar menos, me divertir mais, como quase todos fazem, Não sei se vou conseguir,mas prometo que vou tentar.
Só sei de uma coisa: 2015 mudou a minha vida por completo, Nada nunca mais vai ser como antes,
Mas vou continuar andando prá frente.
Pode chegar 2016, estou pronta pra você!.

Coragem não vai faltar.

Feliz Ano Novo!!
Muitos beijos,
Lela.


Leia também: E o que você fez?
                       Quando eu falo com Deus
                       A gente faz e Deus desfaz...










sábado, 26 de dezembro de 2015

Desapegar não é esquecer...

Revi agora um final de filme que me fez chorar... Toy Story 3.
Bobagem pra muitos, eu sei...
Andy se despede de seus "amigos" da infância: Buzz, Jessie, Sr e Sra Cabeça de Batata, aquele dinossauro com cara de doido (Miguel fazendo revisão me contou que o nome do bicho é Rex) e, finalmente do Woody. Nem me lembro como chegaram a essa casa e a essa menina boazinha, mas depois de tudo que passaram naquele jardim de infância, com certeza aquilo é o Céu dos Brinquedos. Mas não é essa a questão.
A questão é: Andy abriu mão dos seus amigos e seguiu para a faculdade; fez seu rito de passagem e desapegou. Não sem dor, como fica claríssimo, mas fez. Como dizem os americanos: moved on.
Seguir a vida é difícil. Andar, sair do lugar, da zona de conforto, arriscar...
A vida nos chama tantas vezes, todos os dias e resta a nós irmos para ela ou não. Não dá para ficar com um pé em cada barco. No caso do Andy, ir para a faculdade com o Woody dentro da mochila não seria possível. E ele entendeu.
Mas penso que desapego não deve ser esquecimento. Desapego deve ser abrir mão e como diz uma das muitas definições: perder a dependencia. Andy jamais iria se esquecer dos parceiros de tantas aventuras, principalmente do cowboy.


Vendo esse final comecei a pensar nos meus próprios brinquedos e nos meus desapegos. Quando criança tinha bonecas, panelinhas, paninhos, bercinhos, que foram sumindo ao longo dos anos sem que me desse conta dos desaparecimentos. Mas tinham coisas que eram complicadas: o vestido que virou bata e depois blusa; o prendedor de cabelo azul de coraçõezinhos que tenho guardado até hoje (não desapeguei); a Pepa; e principalmente o travesseirinho.
 A Pepa foi a última boneca que ganhei dos meus pais, lançada na época de uma novela. Mamãe dizia que ela era feia, acho que de implicância...Há muitos anos atrás foi reformada e colocada na minha cama com uma cartinha. Mas ficou na casa da mamãe quando mudei e ainda deve estar por lá.
Do travesseirinho só me livrei muito tempo depois de casar . Que foi?? Ele cobria minha cabeça, me protegia de pernilongos e de monstros noturnos... Tinha muito medo de dormir, pesadelos, TOC... Me julguem!! Não sei como desapeguei dele, mas o fato é que não uso travesseirinhos  há mais tempo do que consigo me lembrar.
Não tive grandes traumas com brinquedos, desapeguei tranquilamente naquela época. Não lembro de um grande drama ao doar os meus e nem quando percebi que eles não estavam mais por lá. Sei que ainda tenho umas bonecas guardadas em Estrela Dalva, mas foi a mamãe quem guardou; nem sei quais são. Meus problemas são os artigos de papelaria: papéis de carta, adesivos, lápis comprados com o objetivo de não serem usados JAMAIS. Assumo.
Tenho uma certa nostalgia, principalmente das panelinhas (olha que ironia!). Gostava de brincar de panelinha, fogãozinho, talherzinho, de dar banho nas bonecas...
Acompanho de perto a sofrência dos meus filhos a cada "sessão desapego" que promovo aqui. Cada vez que aviso que está chegando a hora de desapegar, Miguel muda de cor. A mochila de animais, que ao longo do tempo virou uma caixa enorme, hoje é uma caixa média, com animais e dinossauros. O menino mexe, remexe, separa daqui e dali e uma hora desiste; diz que não consegue. Cada um tem seu tempo e eu respeito. Embora ele não brinque mais, eles estão ali, como uma muletinha talvez; para uma olhadinha fortuita de vez em quando; para saber que os companheiros ainda são companheiros; e que uma manada de elefantes poderá fazer uma grande diferença contra os inimigos.
O dia de desapegar de vez vai chegar, eu sei. E nesse dia ele terá atravessado para sempre uma ponte para a vida adulta e não terá mais volta. Como o Andy.
Em julho assisti outro filme que me fez chorar: Divertida Mente. Em um dado momento do filme, o amigo imaginário da menina Rilley, um simpático bichinho com corpo de algodão doce cor de rosa, metade elefante, metade gato e alguma parte golfinho, que chora balas e ainda tem o nome de Bing Bong se deixa ficar num limbo, onde todas as memórias serão esquecidas para sempre. Faz isso para salvar todas as outras memórias e sentimentos de sua amiga, sabendo que não será mais lembrado. Chorei por coisas realmente esquecidas e chorei imaginando coisas que meus filhos inevitavelmente irão esquecer, terão que esquecer para seguir adiante. Crianças não conseguem entender isso ainda, e passam pela parte do Bing Bong ficando no limbo sem maiores problemas; mas pra quem já cresceu, olhar prá trás e saber que não pode voltar, definitivamente é de chorar.


Por enquanto não quero ver o Bing Bong desaparecer de novo. Uma vez já foi o bastante.
Estou me preparando para o desapego do Miguel. Para ajudar no que ele precisar, para sair de cena e deixar que ele vá fazer a vida dele do jeito que ele quiser; prá desapegar de nós. Contando que ele seja feliz.

Beijos,
Lela,

Leia também: Papelaria
                       Miguel






quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal.

O primeiro neste apartamento.
A primeira ceia feita pelo Mário.
A primeira vez que vi Helena em 24 de dezembro.
A primeira vez sem a mamãe.
Não está sendo fácil.
Está sendo estranho estar aqui, com os meninos, o Mário, o Jayminho e sem ela.
Sim, já se passaram quase 6 meses de sua morte e tanta coisas aconteceram desde então. Coisas boas e outras nem tanto, mas confesso que meu referencial para coisas ruins mudou um pouco. Acho que nada vai me abalar tanto tão cedo.
A casa está pronta, a Árvore montada, os presentes debaixo dela e todas as outras decorações escolhidas pela Ana devidamente arrumadas e prontas para entrarem na mesa.
Mas não parece Véspera de Natal, parece um domingo qualquer; talvez a atmosfera mude. Já fui ao supermercado duas vezes em menos de 24h por esquecimentos meus e ao chegar ao estacionamento, percebi que esqueci o papel de presente. Xinguei alto, o ajudante do supermercado era deficiente auditivo e não me entendeu mesmo. Mas ao chegar aqui, descobri que tinha umas sobras que serviram exatamente para o que eu precisava.



Já comecei a ligar pra rede velhinha.
Já recebi uns telefonemas e mensagens no telefone.
Meus Mets estão em polvorosa com a saída do hospital do primeiro infartado do grupo (Marcello inaugurou a fila) e com o irmão de nossa amiga Isa que teve uma bem sucedida cirurgia por causa de cálculo renal.
Pensando aqui... Quem inaugurará a fila do Climatério, já que todas temos 29- 30 anos e estamos na flor da idade??
A verdade é que desejo a todos os meus amigos, Mets ou não, uma noite muito feliz, cheia de Paz, Amor, Felicidade... E que o verdadeiro motivo do Natal seja lembrado e celebrado: o nascimento do Salvador.
Que a chegada do Menino Deus traga mais Luz aos nossos corações para que possamos enfrentar o que quer que seja que vem por aí.


Que venha o 4º ano para a Teca e o 9º para o Miguel. Que meu irmão tenha um ano brilhante no comando em Sorocaba. Que o Mário e eu continuemos sempre juntos, afinal de contas, os ogros também amam...

Feliz Natal, queridos!!
Beijos ,

Lela,


Leia também: E o que você fez?
                       Quando eu falo com Deus
                       Confraternização
                       Mets 87

domingo, 20 de dezembro de 2015

Viagem dos Sonhos

Muitas vezes tenho vontade de sair por aí. Sozinha, ou com Mário, ou com todo mundo. Uma bagagem de amigos divertidos, bons comedores e bebedores, porque gente que tem frescura pra comer e não toma nem uma tacinha de vinho deve ficar em casa!!
Na verdade tem tantos lugares que gostaria de visitar que teria que ser uma viagem bem longa e para isso teria que contar com dividendos que, por hora, não disponho.
Com certeza essa viagem seria para a Europa. Sei que os chatos vão pensar que o nosso país é maravilhoso, tem muitas coisas a serem vistas e blá blá blá... Só que pretendo começar pela Europa, a viagem seria minha e acabou!!
Acho que outras vidas andei pela Europa Medieval, principalmente pelas ilhas da Grã Bretanha, tamanha fascinação que tenho, tanto pelo lugar como pelas histórias. Como pelos livros sobre esse período que caem na minha mão. A trilogia de Arthur de Bernard Cornwell me fez chorar várias vezes até o fim, ao pensar no Rei Arthur ferido partindo num barco e Merlin tendo um final tão terrível. Várias vezes entrei na estória para lutar lado a lado ou observar as flechas zunindo de um lado a outro. Guerras entre clãs, artimanhas, romance... Tudo isso me transporta, mas ao mesmo tempo é familiar, então com certeza passaria um bom tempo explorando tudo que pudesse.




A Itália mereceria muito a minha atenção. Berço de tantas coisas que hoje são tão banais que passam desapercebidas, lugares de milhares de anos que convivem em harmonia com o moderno. Mas dentro de toda a Itália, acho que ficaria encantada, hipnotizada mesmo na Toscana e em Veneza; e nem venham me falar do cheiro dos canais e estragar meu sonho, por favor.






A Espanha é berço da família de meu pai: cristãos novos, judeus convertidos como milhares de outras famílias, que mesmo assim sofriam algum tipo de perseguição por parte da Igreja, acabaram vindo tentar a sorte no Brasil colônia e acabaram se estabelecendo por aqui.
Na verdade são tantos lugares: grandes e menores, janelas, campos de lavanda e de girassóis, fontes... Teria que estudar vários mapas e estabelecer prioridades. Coisa mais difícil!





Mas que eu queria , eu queria!E tantos outros lugares que um dia eu conto.

Beijos,
Lela.


Fotos: Printerest

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                       Não ganhei na Mega Sena



sábado, 19 de dezembro de 2015

Diferenças

Já falei diversas vezes aqui de como amo os meus filhos loucamente, desvairadamente.
São diferentes. A diferença de idade entre eles supera os 5 anos, mas são companheiros da forma deles.
Miguel trazia paninhos quentes para amainar as dores de barriga da Ana quando bebê, trazia a bolsa de remédios que ela usava e andava de um lado pra outro enquanto ela chorava,
Como ele sempre foi apaixonado por animais, tinha muitas figuras, revistas e livros sobre eles. Um dia ao chegar do trabalho, encontrei os dois na sala. Ana tinha um grosso fichário de animais no colinho e Miguel, professoralmente, apontava para a figura aberta e pedia que ela repetisse: baleia azul; no que era prontamente atendido "baleia azuuulll", bem desse jeito.


E assim eles vem seguindo a vida: brigam por causa de televisão, por causa de amigos, da coca cola, do pão, do último pedaço de qualquer coisa... Como qualquer casal de irmãos que um dia vai descobrir que o amor é maior que qualquer coisa que possa acontecer na vida deles.
Brigam, se apóiam, se defendem, têm ciúmes (ele mais que ela), andam juntos e separados. Quando ela tem medo, ou ele vai dormir no quarto dela, ou ela descaradamente vai para o canto da cama dele. Mas é uma relação bonita, desde sempre.
Reconheço que ela é um pé no saco quando quer e consegue as coisas com muita facilidade, porque tem mais jeitinho para pedir e convencer a todos. Não se incomoda em pedir coisas se acha que precisa. Já ele não. Embora seja muito pidão, a ponto de cansar, já presenciei a vergonha do menino ao pedir 10 reais ao pai no shopping para comprar lápis. Vai entender...


Como pode essas duas crianças saírem do mesmo casal? São tão diferentes, falantes, implicantes, amigos.
Um é nerd e a outra é diva.
Ela quer um Vlog (what?!) de presente de 10 anos...
Enquanto isso, ele às portas dos 15 e com todos as questões da adolescencia começou timidamente um blog para falar sobre as coisas que tanto gosta: filmes de animação... Vejam aqui: Como esse filme acabaria
Gostei bastante!
Ainda tenho 1 ano para descobrir o que é Vlog... Ainda bem!!





Beijos,
Lela.

Leia também: Miguel
                       Coisas de Mocinha
                       Ana Teresa, meu amor
                      Mães